sábado, 12 de abril de 2008

Tarde Bela...

Uma estrada vazia, sem curvas, para os dois sentidos apenas uivos dos ventos. Vasto verde à beira da estrada, provavelmente aquele homem estava ali em pé, olhando a estrada, já a algum tempo. Como se esperasse algo e não houvesse hora para acontecer, uma eternidade. A noite chegaria logo.


Naquela chuva,

no verão,
alguém lhe cobriu.

Naquela tarde,
você se machucou,
quem lhe deu a mão.

Se lembra dos domingos
o dia era tão lindo
alguém lhe abraçou...

Chegou feliz da vida
e com os amigos
foi viver

"Ha, ha, ha". Um risada gostosa, divertida. "E aí? Vamos lá?". Amigos reunidos, televisão ligada numa sala quadrada, um sofá confortável e uma mesa de centro. Jovens. Uma mulher nova e bela entra trazendo uma bandeja com petiscos para a turma. "Ah! Mãe valeu... o pessoal nem tá ligando muito para comida". "E vocês vão ficar bebendo sem comer nada... nada disso!". Horas depois, todos riam da última piada. Chega o momento de partir. "Cadê a chave?!?".

Vento no rosto
um lamento dos pais
um silêncio, um sufoco,
tormento...

Vento no rosto
um lamento dos pais
um silêncio, um sufoco,
tormento...carro fatal

O dia se despediu a tempo de não ver aquele homem se desfazer. O corpo imóvel que contemplava aquela estrada como se de cera fosse, sem alma, num segundo enrijeceu a face, enrrugou-se, num outro encolheu os olhos e logo fez chover, uma tempestade sobre o seu mundo. Seus ombros não aguentaram e uma corcunda se apresentou para incliná-lo, tirá-lo do eixo e fincar seus joelhos no chão...

"Tarde bela
Tu navegas em meu pensamento
te espero no silêncio desse tempo

A saudade é forte
Arde no meu peito
és o amuleto
que me faz ficar"




terça-feira, 1 de abril de 2008

Van experiência

Fim do dia. Cai a noite. cachorros latindo, rua de terra batida, casa simples, dois cômodos, família reunida. Mãe e três filhos: uma jovem senhora, um rapaz e duas meninas. Mesa posta, arroz, feijão e batatas cozidas. Hoje não tem carne.

- Meu filho, você precisa arrumar logo esse emprego, como foi hoje?
- Poxa! Não quero falar agora, deixa minha cabeça descansar um pouco!
- Sua irmã amanheceu com febre, não tem como você falar com aquele seu amigo do posto...
- Unf...


Claudionor desde que completara dezoito anos procurara auxiliar a mãe e as duas irmãs, mas era massacrado por constantes insucessos. Sua cabeça estava prestes a explodir. Todo dia o que mais lhe desagradava era ter que informar suas derrotas. O caminho longo, árido e cansativo que percorria todos os dias não incomodava. Angústia mesmo sentia quando sentava à mesa, no fim da jornada.

A noite passada atormentou sua cabeça. Quase não dormiu, mas bem cedinho abriu os olhos. Ergueu o corpo sentando no seu colchonete seco no meio da sala e contemplou à sua volta. Uma pequena TV, paredes descascadas da última enchente, sofá ausente e a porta... Símbolo do início de cada nova batalha.

Arrumou-se. Celular no bolso, chave de casa, tirou o brinco – “pareça o mais normal possível e mostre que tem caráter” ouviu de um grande amigo de seu pai, feirante da região, não concordou de início, mas àquela altura, não dava para arriscar -, abriu a porta.

Colocou os dois pés sobre o capacho, inflou seu peito com ar puro e contemplou com a cabeça erguida... Montanhas verdes. Olhou para as casinhas mais distantes, olhou para os lados e não avistou qualquer veículo. Rapidamente, então, pôs-se a marchar tal qual um atleta de marcha olímpica, porém, não tão rápido que o fizesse suar, nem tão devagar que permitisse ser atacado pela poeira que subiria da rua sem asfalto quando a primeira carroça o ultrapassasse.


Alcançou a primeira rua asfaltada e seguiu por ela. Não era o caminho mais curto, mas era o melhor caminho. Claudionor já havia percebido que para vencer seria preciso muita concentração, não poderia repetir os erros. Muitas vezes achou não ter conseguido o emprego em razão de chegar todo suado, mulambento. Seu caminho até a Capital do Rio era longo e ele não poderia mais falhar. Por isso, acordava mais cedo para poder fazer o trajeto com mais calma. Escolheu o caminho mais longo até o ponto da van, porém com ruas asfaltadas, o que evitaria a poeira permitindo desembarcar no Rio de forma apresentável.

Na hora de escolher a van a mesma coisa. Como acordava cedo, aguardava que saísse aquela van com ar condicionado, do contrário, tudo estaria perdido.


- E aí Nonô?! Vai tentar a sorte de novo – gritou um conhecido que se considerava mais íntimo do que deveria, sabe como é, né?

- É! - respondeu Claudionor, seco e concentrado, não alimentando o ímpeto do sujeito em continuar falando, aliás, odiava que o chamassem de Nonô.

- Quer saber Nonô, não sei o que você vai fazer lá embaixo, posso dizer com sinceridade, já trabalhei numa empresa muito grande lá no Rio e digo uma coisa: NÃO VALE À PENA! Todo mundo só quer que você rale, rale, rale e na hora de reconhecer o talento, de dar um aumento, uma folguinha a mais que seja, o que se recebe é um NÃO, bem alto e sonoro! A melhor coisa que você faz é ficar na tranqüilidade que a gente tem aqui, aqui todo mundo é irmão, é parceiro, não tem essa de crocodilo e...

Em determinado momento Nonô, quer dizer, Claudionor, já havia deixado de registrar as palavras do sujeito. Aplicava a técnica que desenvolvera chamada “Sei... Hum, hum... É mesmo...”. Consistia em reproduzir palavras que podiam sair automaticamente sem que precisasse refletir sobre a mensagem do interlocutor o que lhe permitia conversar sem gastar energia nem se estressar, assim, não magoava o interlocutor e todo mundo saía feliz e contente.

A van com ar condicionado então se posicionou, ela seria a próxima para o Centro do Rio. A primeira etapa do trajeto rumo ao sucesso tinha sido completada com perfeição. Claudionor sentou-se perto da janela na segunda fileira de bancos (a primeira costuma ser mais apertada) e sentiu uma sensação de vitória, sabe criança quando passa de fase naquele jogo de vídeo-game complicadíssimo, então, representava o semblante dele.

A van estava quase cheia, o que significava que logo iria partir e com isso Claudionor chegaria com folga ao seu destino. Motor ligado, ar condicionado na medida, pessoas conversando, o sol começava a ocupar o seu lugar. A porta da van se fecha e o carro começa a se mover. Do lado de fora, um grito:

- É Rio, vai pro rio, vai mais dois, mais dois...

Ao lado do Claudionor não havia ninguém o que significaria que as duas últimas pessoas obrigatoriamente sentariam ao seu lado. O grito Claudionor não registrou, pois estava muito concentrado, mas quando a van parou, ele levantou a cabeça.

- Meu Deus! – falou baixinho resignado.


Quando olhou pela janela, o que via retirava de sua face o ar de tranqüilidade que até então preservara. Caminhavam em direção à van duas pessoas, uma delas um rapaz magro, moreno, bigodinho da moda, cabelo amarelo... Até aí tudo bem. A outra pessoa: uma senhora imensa, gorda, com uma sacola grande, gigante... Uma... Em cada braço!

À medida que eles caminhavam em direção à van Claudionor, só pensava numa coisa, quer dizer em duas, digo, na verdade não pensava, não conseguia pensar, mas falava em voz baixa sussurrada e sofrida:

- Caracas, vai amassar toda a minha camisa... Tomara que ela sente na outra ponta...

É que cada fila de assentos de uma van tem três lugares (exceto a do fundão), se a senhora sentasse no meio, fatalmente sua camisa, cuidadosamente esticada fio por fio por um ferro de passar da energia racionada de sua casa, estaria fadada a virar maracujá. Por outro lado, numa iluminação divina, caso o maluco do bigodinho fosse solidário o suficiente para sentar no meio, e era essa sua prece, haveria uma chance dele, Claudionor, salvar sua camisa.

Não houve jeito, numa jogada de mestre o maluco do bigode, permitiu a ultrapassagem da senhora e foi o último a entrar. Claudionor, humildemente, registrou essa nova lição: ‘seja sempre o último a entrar’.

A senhora, então, sentou ao seu lado e Claudionor passou a tentar que seu estado psicológico também não fosse afetado por aquele baque.

- Ai, Ai – gemia a senhora tentando acomodar as duas bolsas em seu colo – Nossa, tá difícil, meu deus do céu, ai, ai – e já era o segundo sinal que a senhora dava para que alguém lhe ajudasse.

Com muita dor no coração Claudionor se fez de desentendido, já não bastava chegar ao Rio igual a um maracujá não poderia chegar mancando por carregar nas pernas uma daquelas sacolas, elas pareciam muito pesadas. Foi então que o mestre do bigode lhe deu mais uma lição. A van mal começou a andar e ele já dormira, quer dizer, ou Claudionor ajudava, ou a Senhora iria lhe mostrar que sim, poderia ir da Baixada até o Rio reclamando.

Mas não foi isso o que pensou, ele viu que sendo mesquinho não chegaria a lugar nenhum. E Já que estava todo amassado mesmo, não lhe custaria nada aquele gesto...

- Senhora, senhora – cutucou gentilmente aqueles braços que o espremiam contra a janela - dê-me aqui uma destas bolsas, eu lhe ajudo!

- Ai, meu filho, eu não quero lhe aborrecer...
- Senhora, por favor... – Claudionor, retirou-lhe a força com muito cuidado, pouca paciência e posicionou aquele peso todo em cima das pernas e pensou ‘só não posso começar a suar’.

A senhora sorriu e agradeceu dizendo que estava muito velha e que sofria de não sei o quê e.... “Sei... Hum, hum... É mesmo...”. Claudionor até buscou extrair daquele sorriso a lembrança de sua querida avó, ‘que saudade’, mas logo desistiu e passou a contemplar o que se passava pela janela e lá no fundo dos seus pensamentos uma lição "durma cedo".

sábado, 22 de dezembro de 2007

Não chora, vai passar!

- Não! Não tem como você explicar a minha existência! E se meu destino indicar no sentido do mal? Como saber quem sou? Prever o que pode ocorrer?

- Meu filho... Vem cá.

A mulher, de vestido estampado e olhos umidecidos pela dor que sua experiência ensinava a sentir em momentos como aqueles, abraçou o rapaz. Ambos estavam sentados num banco de rua. Os ventos balançavam seus cabelos enquanto a mulher trazia com as mãos a cabeça do rapaz para repousar em seu ombro.

O rapaz sofria. Um sofrimento infantil por coisas da vida. Era um jovem frágil de estatura mediana que acabara de saber que não saíra do ventre de sua mãe. A sensação de quem o viu no momento da revelação foi a de que o menino teve o coração retirado e no lugar colocado uma pedra de gelo. Seu corpo todo esfriou. Sua face entristeceu e expressou um sentimento de interrogação:

- O quê? Repetia sucessivamente.

A mãe sabia que não seria o fim do mundo revelar tal segredo, mas também sabia que até o rapaz entender isso, sofreria um pouco. Logo que a pedra de gelo derreteu as pernas do rapaz começaram a se mover e ele correu. Esperava no inconsciente que estivesse chovendo lá fora, para compor o momento, mas era o dia mais quente do ano. Dezembro, Rio de Janeiro.

O rapaz, que não era um atleta, logo cansou. Parou, respirou fundo, bem fundo mesmo e se desconstruiu em lágrima. Desmoronou. A mãe se aproximava acompanhada de um tio do rapaz. Antes de alcançarem o garoto, a mulher suplicou ao tio que os deixassem a sós naquele momento. Dois minutos de insistência e o tio cedeu, foi embora.

A cidade estava linda, a praia estava cheia e o rapaz nunca tinha visto tanta gente feliz em toda a sua vida e quanta gente bonita, mas seu coração martelava suas tentativas de renascer. A mulher se aproximou e o ergueu. Os dois sentaram no banco. O rapaz tinha os ombros caídos de depressão e derrota, foi quando ele esbravejou as dúvidas que lhe acometiam em relação a sua existência.

Enquanto abraçava sua mãe, ergueu os olhos, e, ainda com a visão embaçada com as fugas das lágrimas, viu na calçada uma criança correr em seu sentido, se desequilibrar e cair. Ao tocar o chão a criança exercitou a força dos seus pulmões num grito ensurdecedor de choro.

Rapidamente o rapaz alcançou a criança, foi o primeiro a chegar. Pegou a criança ainda de boca aberta, passou a mão com ternura em sua cabeça falando baixinho:

- Não chora, não chora, vai passar...

Os pais da criança chegaram e com um sorriso agradeceram antes de receberem a criança de volta. Despediram-se e seguiram... O rapaz observou a família desaparecer no horizonte e um senhor que desde a outra ponta da praia vinha desejando feliz natal para todos, fez o mesmo com ele. O senhor andava bem devagar com o corpo meio curvado, mas com um sorriso de criança. Com isso veio na mente do rapaz as primeiras palavras que ouviu logo após a revelação:

- Tu num vai chorar por isso!! Disse o tio insensível.

"É mesmo" já pensava o rapaz àquela altura.

domingo, 28 de outubro de 2007

Metal abandonado.

Desde que caíra pela última vez não houve um minuto em que não se dedicou para ser aproveitado ao menos uma vez mais. Ele fora abandonado no pé de uma amendoeira, naquele pé, rodeado por terra escura, com marcas de homenagem canina de toda espécie: toda espécie de marcas, toda espécie de cães.

Trazia na face o desgaste, sinais que apontavam uma existência difícil. No dia em que o encontrei, um sol de deserto agredia quem se atrevesse a encará-lo. Céu azul, uma imensidão azul. A minha pele negra suava como cachoeira e para fugir da agressão do sol, olhava para o chão, asfalto inundado pela ilusão do calor.

Enquanto meu peito inflava e esvaziava pela exaustão dos meus esforços, colocava as mãos nos joelhos e percorria a via, somente com o olhar. Lá estava ele: o metal abandonado.

No momento em que o avistei, meu corpo relaxou, soltei muito do pouco ar puro colhido por meus pulmões e ergui a cabeça olhando para o céu. Não dava graças a nada, não agradecia nada, ao menos naquele segundo. Apenas descansava mais um pouco até começar a caminhar em sua direção.

‘Como é possível que alguém seja tão descuidado a ponto de perder um metal tão bonito?’ Pensei, enquanto me abaixava para pegá-lo. Segurei o entre os dedos e ergui até a altura dos olhos. A sujeira impregnada em sua face era obstáculo desprezível para impedir minha paixão. Permaneci hipnotizado por seis segundos.

Faltou-me coragem para colocá-lo no bolso. Minhas roupas eram sujas. Mantive-o na altura dos olhos. Foi quando lembrei da minha pulseira de barbante que carregava enrolada no pulso já há algum tempo, desde que ganhara um papel fedido de um motorista com semblante de anjo.

Havia amarrado o papel para que não o perdesse, já que aguardava ansioso a realização da profecia do anjo: ‘guarde e coma algo com isso’. Não bastasse minha pobreza, ter que carregar, como um amuleto, aquele papel fedido e sujo, era incompreensível, mas até então nenhum alimento surgiu para que, acompanhado do amuleto, suprisse minha fome e assim ver cumprida a profecia.

Imediatamente desamarrei o amuleto e amassando-o coloquei no bolso. A intenção era amarrar o metal para não cometer o mesmo erro de seu último dono. Só que a barriga doía demais e com aquela riqueza poderia me fartar num banquete. Resolvi dá uma forcinha para a profecia.

Virei a esquina caminhando para o bar do Ademir e quase tropeço num cidadão que se encontrava sentado no chão com a perna esticada. Era o Cumbuca. O infeliz vivia ali com uma camisa de linho de manga comprida, amarela encardida, rasgada na altura de um dos ombros. Ao seu lado uma cumbuca vazia que ele dizia ser mágica.

‘Mágica?’ Indaguei um dia desses. ‘Mágica sim! Tira o olho!’ Gritou. O cara-de-pau tentou me convencer que de tempo em tempo uma nuvenzinha escura sobrevoava a cumbuca e despejava uma pequena chuva de metais preciosos. ‘Balela!’, falei.

Até hoje eu não acredito, mas houve um domingo em que ele me levou para jantar com os irmãos dele. Ele arcou com a refeição de todos. Numa praça grande, todos os irmãos formaram uma fila imensa, cada um recebeu a comida num lindo recipiente prateado, foi uma festa. Coisa fina. ‘Deus o abençoe’ dizia a moça jovem que entregava o alimento, devia ser uma prima distante, pois o Cumbuca nem olhou para ela direito, pura vaidade do poder.

Quando vi o Cumbuca sentado naquela esquina lembrei desse dia de fartura. Não seria justo da minha parte não convidá-lo para me acompanhar. Dei duas bicudas na perna dele e o danado não acordou. Abaixei bem perto do seu ouvido: OH! CUMBUCA DOOOIDO! O safado se assustou e bateu com a cabeça na parede. Ha, ha, ha... Quase morri. Sério. Estava fraco por causa do calor e da fome, não consegui respirar por cinco segundos com a crise de riso que me acometeu. Fazia dois dias que não ria assim, de gargalhar.

- Seu narigudo maluco! Já não te avisei para não fazer isso. Agora a nuvem se dissipou! Inferno!
- Calma... Eu vim justamente te convidar para almoçar lá no Ademir.
- Vai sozinho...
- Por quê?
- O Ademir não me quer pelas redondezas por conta do porre de quarta.
- Você bateu nos clientes de novo?
- VAI, VAI, SAI DAQUI! SAAAI..., gritou.

Segui meu caminho, mas resolvi que traria um pouco de comida para o Cumbuca. O Ademir era um cara legal, mas quando ficava bravo dava umas tapas fortes na nuca da gente, o melhor para o Cumbuca era não aparecer mesmo. Andei de cabeça baixa fugindo do sol por uns dois quilômetros. Não avistei nenhum outro metal. ‘Puxa vida, o Ademir está fechado’.

- Seu Valdir?

Seu Valdir era um maluco que foi preso pela família real numa caixa de ferro e condenado a entregar papéis fedidos também, mas que contavam as histórias da cidade. Certa vez o Cumbuca apareceu num desses papéis, quando, depois de um porre, fora levado para passear com uns soldados da corte. Naquele dia não o vi dormindo na esquina.

- Fala Pelica, mas fala daí... Não... Vai para o outro lado, contra o vento... Isso! O que você quer? Resmungou Seu Valdir.

- Hoje vou à forra, Seu Valdir! Sou rico! Olha o metal que achei!

- Cruzado, Pelica?!? Ha, ha, ha... Só você mesmo para me fazer rir.

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

Estágios

Estágios.

Mergulhão, Centro do Rio de Janeiro. Desembarco para mais um dia de “guerra”. Na verdade uma guerrinha boa que é até divertida. Um estagiário no Centro passa por verdadeiras peças teatrais a cada instante. A começar pelo horário de chegada.

- Puxa, vida! Um hora e quarenta, não vai dar.
- É rapaz! O trânsito hoje não tá legal, não ta fácil.
- Odeio ter que correr...

Até que não chama tanta atenção uma pessoa de terno e gravata. No Centro é até comum. Uma pessoa de terno e gravata, correndo... o que é que tem, né? Pode ser algum prazo, todo mundo entende. Agora o que não deve ser corriqueiro é uma pessoa, de terno e gravata, se esforçando ao máximo para correr cada vez mais rápido – postura de atleta, rosto apavorado como se não respirasse – e com certeza com um expressão facial muito, mas muito engraçada. Só isso explicaria a fato de todo mundo estar me olhando.

Na certeza de que não ganharia nada com isso, já que o atraso estava consumado, cheguei vivo.

- Boa tarde, boa tarde... E aí, Geraldo, tudo certo? Rosana, o Doutor perguntou por mim?
- Perguntou sim. Está lá na sala dele quer falar com você.
- Xiiii...

Bom, quando se tem uma só opção podemos até descansar o cérebro. Vamos lá. Não tem outro jeito, né? Com certeza hoje ele veio de bom humor. Acho que não é nada demais. Calma, rapaz, calma! Respira fundo...

- Boa tarde, Doutor.
- Unf!! Não tão boa assim. Você está com algum problema. Está havendo alguma coisa. O estágio não está te agradando...
- Não é isso, doutor, é que...
-Hoje você só escuta! E não quero saber mais de atrasos. A vida não admite atrasos. O direito não admite atrasos. E será melhor para você compreender isso e... Quando eu era estagiário... Porque a vida... Eu falo isto para o seu bem e... Bom por hoje é só, vá fazer as diligências que estão na sua mesa e juízo.

É chato quando chamam a nossa atenção, poxa, foi legal da parte dele ter dado aqueles conselhos. Tudo bem, mas não precisava ter gritado. Isso incomoda... Vou esfriar a cabeça chutando essa latinha, o legal de estagiar assim é poder dar uma volta de vez em quando...driblou um, eh, driblou o segundo, olé, tam tam tam... tam tam... tam..., e a galera vai à loucura... Passa por debaixo das pernas do zagueiro e...

- Oh, oh! Não sabe brincar não, é?

Poxa vida, o cara levou a latinha... sacanagem...

Forças

Forças

Rio de Janeiro, 01 de julho de 2003.

1.
Prometa-me, de uma vez por todas, que nunca deixará de acreditar que vai conseguir, continue buscando. Não deixe de tentar alcançar seus objetivos. Parece repetitivo, mas é o que realmente gostaria de lhe dizer.

A gente pensa que as forças do universo se refletem apenas nas grandes invenções da natureza, nos ventos, nos mares, furacões e tempestades; na Lua, nos vales, no Sol, mas percebi outro dia – um dia desses em que não se percebe nada porque o Sol não queima e o frio não incomoda – observando o mundo da janela de um ônibus, que as forças se encontram onde menos esperamos e nos lugares onde menos nos preocupamos com isso. Muitas vezes, passamos por universos maiores que o nosso e nem percebemos sua grandeza de tão pequenos que são.

Olhando da janela tudo estava normal, as pessoas andavam normalmente apressadas e com olhares cansados. Já se aproximava o final do expediente de um dia corrido. Num círculo, trabalhadores riam de alguma piada enquanto que outros passavam por eles correndo para alcançar o ônibus. Um garoto de camisa folgada e com um sorriso distribuía folhetos nos quais dizia ‘DINHEIRO FÁCIL’ observando um rapaz que varria a rua e brincava com um senhor barrigudo de camisa desabotoada que passava vendendo guarda-chuvas num dia lindo na Cinelândia.

Aquele espaço imenso calçado com pedras portuguesas deve caber um milhão de pessoas. As construções antigas da Biblioteca Nacional, Câmara do Vereadores, Theatro Municipal ajudam a manter a Cinelândia presa ao passado. Um mundo próprio. Encontrava-se ali uma mendiga sentada na entrada do metrô numa bancada de cimento. Seus pés não tocavam o chão. Suas mãos enfiadas entre as próprias pernas, com os braços rígidos, como se sentisse frio apesar do calor, lhe davam um tom sombrio de quem não compartilha do nosso mundo. Seu tronco balançava sem parar, para frente e para trás, para frente e para trás, para frente e para trás...

Minha atenção, porém, foi atraída para uma cena que ocorria ao fundo. Atrás das pessoas que passavam de um lado para o outro avistei uma senhora. De longe percebi que caminhava com dificuldade, sua perna direita, a cada passo, vinha arrastada pela esquerda. Seu andar se destacava na multidão. Segurava na mão esquerda uma menina que presumi ter não mais que quatro anos.

2.
Era uma mulher de gestos fortes e decididos, com um ar protetor, seus cabelos cinzentos não escondiam que o tempo lhe havia castigado, mas seus olhos impressionavam porque descreviam a noção exata de seus anos de juventude e foi o que confirmei quando olhei a menina e vi a senhora retratada, conforme diziam seus olhos, mas sem rugas e cicatrizes, sem marcas. Estava presente na criança o mesmo ar de juventude eterna.

A menina de cabelos dourados parecia iluminada, transmitia uma sensação de alegria tácita mesmo que sua expressão naquele momento fosse de espanto. Enquanto a senhora segurava a menina pela mão e, devido ao mancar, puxava a cada passo com trancos que faziam seus cachos balançarem, ela apontava para frente dizendo algo que não pude decifrar mas que lhe forçava a fazer um bico de peixe. Logo após alguns metros, passou a olhar para trás jogando o peso do corpo para baixo dificultando o avanço da senhora e tentando chamar a atenção para alguma coisa que havia ficado para trás. A senhora, então, com feição de impaciência, deu-lhe um tranco mais forte trazendo a menina para junto de si e em seguida desferiu frases e em alto som que obrigavam suas sobrancelhas a enrugarem ainda mais a testa. A menina não chorou, não esperneou, de cabeça erguida e com os dois braços descansados para baixo, ficou estática, mas com uma força tão grande no olhar que não saberia responder qual sentimento era aquele e o que se passava naquela cabecinha. Antes, porém, que acabasse o sermão a menina se soltou partindo numa carreira em sentido contrário ao de sua mãe, desviando das pessoas que, num ato de reflexo, protegiam suas carteiras.

O Rio de janeiro não passa por um momento muito bom, a violência ecoa por aqui como nunca vi antes. Imagino o desespero daquele senhora vendo aquela criança inocente sair correndo por um floresta obscura de pessoas desconhecidas. Lembro-me bem do seu semblante. Menos de um minuto se passou para que sua feição passasse do espanto à serenidade e daí a um estado de alegria e emoção. Um sorriso foi surgindo no canto de sua boca e antes de tomá-la por inteiro uma lágrima correu ao seu encontro para que, juntos, sorriso e lágrima, testemunhassem aquele momento que fazia a senhora esquecer um pouco todos os tormentos do cotidiano e sentir a vida ao menos mais uma vez. Seu coração pulava. Naquele instante a senhora se lembrava do porquê de seu olhar manter para sempre um espírito juvenil e apesar de sua deficiência também correu. Não se importou com todos os problemas e conseqüências que o esforço poderia acarretar e imprimiu um ritmo que deveria ser o mais forte de sua vida, motivada por um sentimento impulsivo e irracional de adolescente quando se apaixona.

3.
Quando vi a menina saindo em disparada senti um pavor com a situação. Não entendia da onde vinha a segurança de partir sozinha no meio da multidão. Temi por ela. Como podia uma menina, e naquela idade, não ter medo de um mundo tão grande a sua frente? Foi então que ela parou diante de uma criança de sua idade que chorava insistentemente sozinha, solitária, deserta e suja, esfregando uma das mãos na outra sem parar, num angustiante movimento de fricção como o de quem lava as mãos, de joelhos e com um melado descendo do pequeno nariz. A menina dourada de pureza insuperável, sem preconceitos ou discriminações, se inclinou e abraçou a criança que chorava de forma um pouco desastrada, encostou seu rosto no rosto dela e, ainda com os braços enlaçados na criança, lhe deu um beijo na bochecha.

A senhora, quando as alcançou, contemplou por alguns segundos a cena e depois colocou as mãos no joelho se inclinando para frente. Não notei se dizia algo à criança ou se recuperava o fôlego, mas isso já não importava mais. Senti um vento no rosto, percebi que o ônibus partia. Avistei de longe a senhora pelo seu andar, e de cada lado havia uma criança. Uma, era a menina iluminada de cabelos dourados e cacheados que tivera forças para ajudar mesmo não sabendo ao certo o que acabara de fazer; a outra, a criança que já não chorava mais e que não consegui distinguir se era menino ou menina.

Milhares de pessoas passavam naquele local, uma infinidade de histórias se cruzavam a todo o momento e se a menina não tirasse forças de sua pequenez a criança remelenta choraria até hoje na minha mente e nunca mais pararia, já que o ônibus partiria e não mais poderia voltar àquele dia, naquele instante. As duas pequenas mãos estariam se esfregando uma na outra numa angustiante repetição eterna como o que deve ter acontecido com a mendiga que até hoje está se balançando para frente e para trás sentada em algum lugar do Centro do Rio.

Perderia milhares de anos para achar força tão grande em tão pequeninos gestos, nas pequenas coisas, numa criança que olha uma folha pegar carona numa brisa. De fato tenho sorte.

Forças estão dentro de nós, tenho certeza. Não se preocupe comigo e termine seus estudos. A distância não apagará o que vivemos juntos. Parece repetitivo...mas é o realmente gostaria de dizer.

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

Vizinhos: loucos.

- Que loucura meu Deus, que loucura!

Uma voz gritava, gritava mesmo. O que se vai pensar, né? Alguém está enlouquecido, pois da forma como essa mulher esbraveja, parece que ela tem certeza de que o louco é louco mesmo e portanto aquilo só poderia ser...

- Eu não acredito! ESSE HOMEM É LOUCO???

Ah! Pronto, está em dúvida, se decide logo mulher e volta a dormir, ainda devem ser oito e meia da manhã. Virei o rosto, para me esconder entre almofadas, tentando proteger o sono daquela histeria. Vocês podem até pensar: insensível! Alguém gritando a essa hora, pode ser grave. Mas de vez em quando essa maluca tem uma pane e estressa todo o prédio.

Caramba! Minha cabeça dói demais! Parece que vai explodir! Alguém com uma chave inglesa aperta, aperta e apeeerta! Ah! A cada latejar chego a enrrugar a face. Não aguento mais de dor. Se a porcaria do time não tivesse perdido teria bebido menos. E ainda esse sofá desconfortável...

- ESSE IDIOTA! Vou processá-lo por isso!

Agora o louco é idiota. Está se valorizando, mas vamos nos concentrar, abracei a almofada e fechei os olhos com força para retomar aquele sonho muito doido. Ah, acho que não vou conseguir dormir e...

- Peraí, que loucura é essa? Onde é que estou?

Levantei num pulo, e me esburrachei no pé do sofá. Espalhado no chão, com os braços abertos, virei os olhos para um lado e para o outro. Foi só o que consegui. Estava num lugar esquisito, com jeito de século passado, um cheiro de naftalina invadiu minhas narinas e abafou o som de alguns xingamentos que vinham do outro lado de uma porta velha, com a tinta meio descascada. Desorientado, mas percebendo um sentimento de derrota no coração, não consegui raciocinar e lembrar o porquê estava de calças, naquele sofá.

- TOC, TOC, TOC, amor é você que está aí? Abre a porta, a vizinha me ligou enlouquecida...